segunda-feira, novembro 18

Fumaça

pulsei com mais fôlego
traguei meu corpo
incorporei-me no ar
desafiei meus sentidos
sobre o teto caminhei
por força dos pensamentos
imersos de sal e sol,
eu transcendi,
disritmei,
descomedi.

Raquel García

quarta-feira, outubro 16

Touch me!



Dedilho a concha e faço o meu som interno.
Notas falhas, gritos sem Dó dos poros,
Sol aquece Lá que se encarrega de transferir
seu timbre em Ré
que oculta os sons mais sórdidos
do aperto e prazer que causa em Mi.

Raquel García.

segunda-feira, outubro 14

Corre-Corre dos meninos

Corre-corre do menino
sem registro
pode ser Carlos,
Daniel, Felipe,
Fabrício...
Para a pressa da rotina
não importa!
Negro, pardo
branco ou amarelo
todos parecerão iguais
cobrando os trocados
do dinheiro inválido

Passa-se das cinco da tarde
Abaixo do pôr-do-sol
há um túnel subterrâneo
um espaço demarcado por catracas
segregação,
de um lado os que pagam
do outro os que ficam
de esmola e grito
leva o dia sem sentido

O pedinte insiste
no resto do meu gole
na colherada de minha gula
Culpa "deles",
culpa minha,
culpa sua!

Por hora ganha
Outrora perde
Reparte, repete
E já são vinte e três horas
Fecham-se os portões
Travam-se as catracas
Acorrentam-se os produtos de consumo
Dá boa noite ao consumidor.

O menino corre-corre
É protagonista
da noite traiçoeira
palco do subumano
madrugada à dentro
nem um colchão pro seu alento
trilha sonora no replay
sirene em sinfonia
farda bandida
furto da vida
mais um nas estatísticas
sem nome, sem rosto

Talvez, as dezessete horas
o garoto não volte
para alcançar o resíduo do meio-dia
tanto em São Paulo
quanto em outro Estado
Cadê Carlos? Cadê Daniel?
Cadê Felipe? Cadê Fabrício?
Cadê?!

Raquel García.

sexta-feira, setembro 20

Machão tolo de cada dia

-Ei, psiu!
Gostosa, delícia
Ôh lá em casa
De quatro deve ser um tesão
Vem cá morena
Negra tipo exportação!

Diariamente
Assediar mulher
É exercício do machão
O manual do tolo
te deixa entrar no elevador primeiro
Pra dar aquela olhada no seu traseiro


Foda-se se não permite,
acredite, você sempre será a responsável 
Ele vai roçar,
sussurrar e ainda ironizar


Verbalizar com coisas não funciona
Aceitar é covardia
Refletir e conscientizar
É força contra esse estupro verbal
Fiu, fiu não é elogio
Calada não vou ficar.


Raquel García

sexta-feira, setembro 6

Corpos

Cena do filme "Febre do Rato"



Ah como eu gosto da textura da extensão e do tesão da volúpia dos corpos da matemática do 69 por 24 A transcendência das línguas compartilhadas Do mapeamento de cada marca, Celulite, cicatriz Bela geometria dos traseiros e membros que tomam formas Ângulos distorcidos O encaixe do imperfeito por cima ou por baixo 360º Vulva que se abre Detalhes endurecidos Suor que se funde A nos somar e derreter Sendo livres e crus Bichos vira-latas Sanando o prazer da espécie.

Raquel García.

segunda-feira, setembro 2

Tempo

Com você, no estalo do beijo parou-se o tempo Ao fechar dos olhos era Agosto na despedida setembro Que venham bons ventos novos dias para os beijos de dezembro
Raquel García.

terça-feira, agosto 13

Encontro

há de haver o encontro
quando perto
sincronizamos

no meio do caminho
há de haver
sem essa de destino

o ser
dentro de um
e do outro
não anula
desanuvia

em minhas pupilas
reflito a assimetria
cismo
a liberdade
minha
e sua

quando em horizontal
nos encaixamos
é o dia que do tempo
nos dissipamos

há de haver a despedida
para refazermos

o  encontro

retornamos
ao princípio
de deixar-se levar
ao ponto

tão novo
quanto o amor
que dispomos

Raquel García.

quarta-feira, julho 24

Reconheça-se negrx

Imagem da web

O sexismo impregnado
nos discursos camuflados 
atente-se ao 25 de julho,
assim como o 8 de março 
Não faça apenas uma alusão
desintegre seu machismo
compreenda a evolução;
minha e sua!
Escape da tolerância
do cavalheirismo
da pirâmide
e conservadorismo
exemplos de açoites contemporâneos
onde ferem a minha pigmentação
vá e reafirma,
cotidianamente
a força feminista
Diversidade é ser reconhecida
se distinguir nos espaços
não sendo mais um produto exótico,
uma causa apenas digerida
por sua posse e seu senhoril;
fatalmente invadida!


Raquel García.






quarta-feira, julho 10

Empatia

Por entre os espaços mal ocupados
há de ver, pousar e sentir
a criação do desejo desatinado
colorirá um retrato

nos metros,
quilômetros dos passos
haverá aqueles que debocharão
a própria penúria,
nas lacunas de longas filas

o entrecruzar cotidiano
lhe dará fôlego para o inesperado,
o encontro das ideias
presumirá a destrambelhada empatia

é um renascer
de dias que morrem
quando não se lê
os recortes da corrida ordinária
de um dia-dia em terra paulista.

Raquel García.

segunda-feira, julho 1

Endorfina

dois corpos,
audaciosa aventura 
das caras deslavadas

percebo o sentido do silêncio
 nos recônditos periféricos 
dessas estórias escancaradas

mergulho na insensatez
respiração afobada
faz do tempo uma invalidez

sutileza estampada
no gosto do gozo
 paixão gradativa

endorfina,
válido é o que vem da alma
estado de ressaca

sonolência, 
em linhas assimétricas
abraça-me e ama.

Raquel García.