quinta-feira, março 26

Negramor

Na diáspora eu resisto
Em estado de resiliência
Finco minhas raízes
Protejo minhas folhas
Minha consciência
Minha cor
Dia e noite
No frio e calor
Resistindo às chuvas e vendavais
A cada nascer e por-do-sol
Enterro minhas dores
Renasço em flor
Colorida
Altiva
E viva
Sou negramor

Raquel García

quinta-feira, fevereiro 19

CADERNOS NEGROS 37

No dia 12 de dezembro do ano de 2014, pude ter alguns de meus escritos publicados em um livro. Com imensa gratidão, participo da coletânea de poemas afro-brasileiros "Cadernos Negros" - volume 37. Esta obra é organizada pelo QUILOMBHOJE Literatura. Cada página construída nesses trinta e sete anos significa a resistência de mentes inquietas e conscientes de sua negritude! Esse espaço permite que escritorxs negrxs possam documentar em material físico o seu emponderamento nas palavras e no exercício intelectual. Bebo da fonte desse legado!

Arte: Márcio Barbosa - Quilombhoje Literatura


quinta-feira, janeiro 29

Olha a água! (É mentira)

Mistério confuso na cidade do opressor Na terra de São Paulo não há deus precursor Seu Geraldo sempre armado Das nossas águas descuidou Enquanto balela na tv discursou Desde março na perifa Tem seca no frio e no calor As escolas já se fecharam Pois nem pra merenda uma gota sobrou Agora somos obrigados À pagar aquilo que não chegou Os fenômenos da natureza se revoltou Quero ver quem vai fazer chover Na destruição ambiental Por interesses dos doutô!

Raquel García.

segunda-feira, janeiro 5

Quero ser Zen

para Zenaide Zen, no ori!

Tranquilizar-me nos momentos que me tenho
Sob a argila que ao meu corpo camufla
Deixo a sorte do corpo à expressar
Na hora em que eu menos esperar

Divido cada detalhe de mim com a natureza
Deslizando em água de cachoeira
Manifestação  real do sentimento de pureza

Salubá! Ao vento peço licença
Para o  meu corpo dançar
No encanto da inocência
Deixo minh'alma balançar

Abaixo da luz solar
Na argila entre os dedos
Sou fera, menina
Faço um esboço do novo
Sob as águas de minas

Inspiração me alcança
Sincronizo minhas formas
Às folhagens das plantas

...Elevo-me!

O movimento sai aleatório
Sem pudor
Com amor

A verdade recai sobre mim:
- Quero ser Zen!

Raquel García.


sexta-feira, janeiro 2

Tiradentes City

Cidade Tiradentes
Contorno ao lado direito do mapa
Borda recheada de diversidade
Da São Paulo multifacetada

Exílio na selva de pedra
Longe do centro
Á alguns quilômetros do mar
Minha hospitalidade
Meu lar

Reduto plural
Falador aqui
Passa mal

Da revolta e da paixão
O lado de cá vive em ação

Coletivo ou indivíduo
Sem migué
Aqui, homem e mulher
produzem o que quer

Tem embolador
Contador de histórias
Meninxs dos muros
Fazedores de rimas
Arteiros em demasia

Feijoada da Príncipe Negro
Samba ao lado do Funk
Nostalgia Black
Não esquecendo do Rap

Pizza Quadrada
ao som do Rock e do Reggae
Pombas Urbanas
Teatro, sarau e dança

Bar da Cris e do João
Biblioteca Solano Trindade
Mc's em reação

Isso é psicoferia*
Característica evolutiva da "Tira"

Raquel García

*neologismo cunhado por Emerson Dylan.


terça-feira, dezembro 23

Vó

Aperto no peito,
expressão da saudade
lembro das longas horas
dentro de um ônibus
atravessando o mapa da cidade

Tempo para alcançar
a Vila Maria alta
só para te ver: Virginia!
que também era Joana
mulher forte da língua afiada
luz do dia

Foi na Maraã,
que deitava ao pé da cama
admirando suas mãos pretas
seus olhos puxados
tecendo o futuro
nos assuntos achados

Ah... que saudade, vó
sua lembrança tem o gosto doce
daquelas cocadas
que na volta pra casa
eu sempre trouxe

Raquel García

quinta-feira, dezembro 18

Caminhada

Meus passos seguem
Loná

Semente espalhada
na terra amarela

Precisa de água para regar
amor para adubar

Regado de irê
em caminhadas longas
com lokun
faz meu caule crescer

Ewé ilè
todo esse axé
carrego nas plantas
dos meus pés

Raquel García.

segunda-feira, dezembro 1

Reação



Fecham-se as cortinas
do espetáculo
televisionado
segue-se ao novo
o longo caminho à seguir

Na rotina
de histórias repetidas
o macho desesperado
não vai nos conduzir

Chega de final infeliz
está em tempo der ser
o que sempre quis

Não mais padecer
na diáspora,
façamos crer
que nenhuma irmã
ficará por um triz

Elos para reconstruir:
denunciar e nos unir!

É preciso desconstruir
O credo de submissão
desviar-se da palmatória
coibir o amor coadjuvante
que no clímax mata

Desenlaçar as amarras
ser  principal atriz
e dar um basta

Apontar a arma
naquilo que faz reprimir
... chegou a hora de reagir!

Raquel García.

Toda casa tem um pouco de África

A dificuldade de encarar a minha imagem refletida no espelho fez parte do meu cotidiano. As referências da TV sempre foram overdoses de um mesmo padrão, a chamada tendência que nos embutem e de praxe coloca muitas mulheres no papel de auto-negação da sua aparência, inevitavelmente tem cor. Eu fui uma delas.
Da infância até a adolescência esperei e testei fórmulas para que pudesse ter o cabelo liso, o nariz afilado e a boca com contorno fino, assim, mesmo com a pele negra poderiam tornar-me mais adequada ao padrão.
Tais pensamentos eram produtos das imagens de alisamentos, chapinhas cabelos lisos e modelos brancas bombardeadas pela cidade que ainda tinha outdoors, também encontrava nas capas de revistas populares, comerciais infantis e produtos cosméticos.
Além dos múltiplos adjetivos negativos e piadas sobre negro e cabelo crespo – de péssimo gosto, vindos dos colegas, paquera e até mesmo da família. Porque controlar era preciso; “esse cabelo difícil, duro, ruim”.
O tempo passou, e os comentários sobre o natural “ser feio” se transformou em ruídos aos meus ouvidos. A partir do momento em que comecei a dar atenção ao espaço que integro, na letra de um rap me vi, num sarau aos poucos a consciência me tomou, consegui enxergar mulheres que são semelhantes a mim, ou seja, na quebrada inteira.
Notei que as referências estavam mais próximas: o cabelo da avó, o nariz do pai, a boca da mãe: resultaram na empatia.
A vida levou-me ao meu próprio resgate, de encontro com a minha identidade. Voltei a olhar para o espelho, abri os olhos e descobri-me guerreira, com sorriso largo, black alto e lábios grossos. Encrespei, renasci!
Reconheci meus antepassados, hoje exploro e tento aprender mais sobre os significados de cada contorno que está no meu semblante e de tantos outros descendentes. Afinal, toda casa tem um pouco de África.
A aceitação em uma sociedade educada nos moldes eurocêntricos é um processo contínuo, árduo e difícil. Há um vasto histórico que não nos contam sobre a beleza que há na carapinha, pois cada guerreira que sobe e desce ladeira carrega nas veias as forças de Clementina, Dandara, Carolina, e de tantas deusas e rainhas negras.

quinta-feira, novembro 27

Desacelerada

Vibrou, acendeu
Despertador tocou!

Eu vou é despertar o corpo
Num processo lento
De prazer e acerto
Embarcar no meu porto

Rebobino meus sentidos
No ambiente abstrai
O movimento assíduo
...Se desfaz

No mesmo segundo o tempo
Assim como o gozo
...Se esvai

[o telefone tocou novamente
]
Já são 6 e 9
Na calmaria que envolve

No meu modo desacelerado
Indecente, exacerbado
Talvez já posso levantar!

Raquel García.