sexta-feira, julho 10

Mergulho

Manifesta na mente o que sou
Festa em mim ecoou

Ludibriando meus medos
Encaro os anseios

Trançando outros percursos
Desimpedida de discursos

Sigo em frente de cara lavada
Pele, corpo, alma
Tão agitada quanto calma

No que pintar
Sedenta, armada, aflorada
Vou mergulhar

Raquel García

Entre o trem e a plataforma

Linhas coloridas recheadas de nós
Na concretude rotineira
Um tumulto, todo  mundo só
Braços para o alto
Bolsas na manha de colete à prova de balas
Um passa-passa
Pernas e malas
Balde(ações),
Vãos, tropeços, pessoas vãs
Quilometragem longínqua
Intensas manhãs
Todo dia, todo dia que nunca é santo
É rotina!
Eu, só para retomar os pensamentos que são prensados na "hora do rush".
Raquel García.

Achados não perdidos - 2012

Das sequências resgatadas

Exílio do corpo
Silêncio para os lábios
A astúcia da essência
Solidão necessária
Intensidade de ser
Por vezes doloridas
Cortinas abertas
Um convite
Que o sol faça sua visita diária
Para os olhos: Verdade
Abençoada seja a maldita da carne, viva!
A loucura é o processo de transmutação
E que cada tropeço meu, resista!
Pra frente e firme.
Eu, numa manhã vertical... 
Raquel García.

Achados não perdidos - 2012

terça-feira, junho 23

Antena

Já pensou que louco
Largar mão do individual
Expandir o umbigo oco
Para as experiências do real?

Dê um jeito na antena
Sintonize a consciência
Desligue-se do Rezende e do Datena
Meta um "stand by"
Alimente as ideias
Instigue a sapiência

Raquel García.

segunda-feira, junho 22

Poder ser e é

A poesia abre portas,
Derruba sentinelas
Promove encontros
Permito expor minhas querelas

Nas palavras pulsantes
De um cérebro inquieto
Num corpo insatisfeito
A poesia é alimento

Poesia que me permite o riso
Retribui o abraço
Promove o choro
De empatia e afago

Nas folhas
Páginas
Marca-texto
Boca

Poesia é um suspiro
O levante daquilo absorvido
Desejado e desconhecido

Raquel García

segunda-feira, junho 15

Mudanças

altero estradas
com minh'alma falha
(re)aprendo acertos
de mente aberta
ideias não se calam
caminho em alvoroço
paciência nas pausas
no incerto, traço recomeço
movimentos intercalam
ao silenciamento que abala
sigo firme no meu lugar de fala
distante das mazelas
redesenho minhas estruturas
de pé, me mantenho
inquieta e ousada

Raquel García


segunda-feira, junho 8

Raíz

Filhas da diáspora
Trazem consigo
Os pés enraizados
Na terra

Cultivam a força
Todos os dias
Semeando a luta

Buscam reparações
A emancipação
N'as veias abertas
Da América Latina

Correm por Benguela
São Mahins,
Dandaras, Carolinas

Ventres de Oxum
Permitem a vida

Mães
Guerreiras
Rainhas

Afoitas
No emponderar do dia-dia

Raquel García.

O Estado Veste Cinza

o Estado veste cinza encarcerar é rotina se não prende, mata
arrancam os frutos das árvores antes mesmo de maduros feito strange fruit
a negra juventude dilacera por detrás das celas ontem, senzala hoje, fundação casa
quanto vale ou é político? matricular omodé na cadeia pra burguesia bater panela que papelão!
na tv destilam o ódio política de vingança sistema de exclusão
aplausos reacionários revoltados online senso-comum midiático dos seus privilégios não abrem mão
os movimentos em reação gritam: maioridade penal? NÃO! que maldade, na moral 31 de março, não quero mais não!
Raquel García

segunda-feira, maio 4

Azaleia

Azaléia que resiste ao frio
No espaço-tempo
Explode seu pigmento
Contraste ao cinza da cidade
Movimenta o eixo
Afirmativa às adversidades
Imponente quanto os arranha-céus
Espetáculo, ensejo
Abre pétalas
Em cores floresceu

Raquel García

terça-feira, abril 28

Eu, mulher preta

Poesia estampada na Biblioteca Temática em Direitos Humanos. CFCCT

Se manca,

Se toque
Para com esse token

Eu, mulher preta
Vou falar de mim!

Não me peça calma

Meça suas palavras
Minha oralidade é tamanha
Feito som de alfaia

Eu, mulher preta

Vou prosseguir!

Nos desvios de cada fiu-fiu
Em noites de passos acelerados
Contra a colonização mental
Várias marcas
E cicatriz

Eu, mulher preta

Que sinto o arrepio!

Nessas tensões
Não lhe devo explicações
Sobre minha fala... minhas batalhas

Eu, mulher preta

É que sei de mim!

Raquel García.