quinta-feira, fevereiro 13

Quente se faz ardente

Tão quente quanto às últimas temperaturas solar.
Com os pelos eriçados, escorre suas gotas sobre o contorno do rosto que leva o gosto do sal à boca.
Num passar de língua, molha seus dedos – indicador e anelar, para tocar lá.
Dança para si, na solitude proposital.
Seu pequeno espaço é tomado pelo perfume cítrico, rosado e íntimo, que se expande pelos quatro cantos, enquanto de quatro faz encantos.
Gosta daquilo que a reflete... Distorce.
Observando sua sombra reproduzida na parede imunda, ao se movimentar.
Um tanto Xângo quanto Oxum.

Raquel García.

Caminhos

Vejo Estrelas
sob um céu limpo
diferente do cinza
do meu município


A lua brilhante
protagoniza
esse espaço infinito


Na estrada,
as coisas ganham
novos sentidos.

Raquel García.

segunda-feira, fevereiro 3

Canção do excluído

Minha terra tem fronteiras
Onde nos transformam em marginais
As pessoas, que aqui, agrilhoam
Não agrilhoam como lá

Nosso peito anseia
Nossas praças carregam tremores
Nossos quintais têm menos vidas
Nossa vida mais rancores

Em, cisma, sozinho à noite,
Mais andarilhos encontro lá
Minha terra dilacera
Onde ouço PÁ - PÁ - PÁ

Minha terra tem ditadores
Que tais multiplicam mais
Em, cismar, sozinho à noite,
Passos largos;
melhor não ramelar

Não permita-me ser alvo de clamores
Dos quinze anos devo passar
Guia-me professores
Paz no caos encontro por cá;
Vou pegando minhas rabeiras
Marginal (máximo respeito)
Pode pá!

Raquel García.

sábado, janeiro 25

São Paulo é um buquê

460 anos
Torrando meu café
Sou resultado do extermínio
feito as bordas de pizza
Estou sobre as margens
Fragmento da periferia
Locomovo-me
Prensada em latas

Elegeram nossos heróis
(que ninguém queria)
Castelo Branco, 1964.
Hoje, 2014
quase 50 anos,
pós golpe militar

Tenho de caminhar
por essas vias
manchadas de sangue
massante rotina

Passar pela Bandeirantes
que cruelmente
matou parte do meu sangue

Aos índios, aos negros
Para os nordestinos
à eles e suas diversas etnias
Honro como donos da terra
Nem paulista, nem paulistano
Não há bandeira sobre o pranto
Guaranis, presente!


Raquel García.

quarta-feira, janeiro 8

Ao que se funde e não anula

Os dias juntos são combustíveis
Para vivenciarmos os possíveis

Sejamos cúmplices do estar
Quando perto,  amar

Nas entregas do corpo e mente
Não procures ser decente

Que não viemos a nos suportar
Mas possamos nos ausentar

A paz do silêncio
É perfume feito incenso

Fazei de ti o melhor para si
Enquanto me renovo em mim

Olho no olho
Desenvolvendo nossos esboços

Atentos às minuciosidades
Ao respeitar a liberdade

Alimentai a frenquência de  sintonia
Nos paradoxos da companhia.

Raquel García

quarta-feira, dezembro 18

Voar, antes de me afogar (Brisa do mar)


Corrente de ar
que impulsiona 
desanuviando
por entre as ondas

Maré alta
ao movimentar
ventos em escala
debaixo do luar

Em noite crescente
sob baixa pressão
transcende

Permitindo o encontro
Desvanecido e fulgente
da brisa com o mar
que vai...vem...
Quente!

Raquel García.

quinta-feira, dezembro 5

Mandela


O ancestral lhe guiou
sendo a voz de um povo
por todo o percurso
insistiu do começo ao fim

Dentro do claustro
sob o sol quadrado
Resistiu!

Tornou-se presente
como espelho da luta
humana e social

Consciência,
Pai da pátria
em liberdade
se foi.

Madiba, presente!

Raquel García.

quarta-feira, novembro 27

Pequeno palco do asfalto

Semana passada a vizinhança perdeu o sono
Mais um menino na calçada
Anônimo
Acertado por uma bala
Tiro ao alvo da madrugada
Dos homens que glorificam a farda

Hoje, um senhor no asfalto
Poderia ser meu pai
Teu, ou dele
Duas horas sob um concreto
Seu corpo em ritmo epilético
Quatro vezes em convulsão

Novamente vem os homens cinzas
Com postura passiva
Ao coro por ajuda
Dos civis em adrenalina
190,192,193...
Pra quê?
Vejo o homem roxo
Comentários à torto
Gente estúpida!

Que importa se ele não estava ébrio?
Que importa sua vestimenta suja?
Que importa a inconsciência de si?

Samu,
Hospital Santa Marcelina
Não rogou por nós
Nem por vós
Estamos a sós!

Raquel García

segunda-feira, novembro 18

Fumaça

pulsei com mais fôlego
traguei meu corpo
incorporei-me no ar
desafiei meus sentidos
sobre o teto caminhei
por força dos pensamentos
imersos de sal e sol,
eu transcendi,
disritmei,
descomedi.

Raquel García

quarta-feira, outubro 16

Touch me!



Dedilho a concha e faço o meu som interno.
Notas falhas, gritos sem Dó dos poros,
Sol aquece Lá que se encarrega de transferir
seu timbre em Ré
que oculta os sons mais sórdidos
do aperto e prazer que causa em Mi.

Raquel García.