quarta-feira, julho 23

Fluidez

Qual o pudor em torno
da subjetividade do meu conhecer do meu tocar
- Da minha masturbação?

Meu sexo inicia na descoberta dos meus dedos na minha vagina

Transcenda esse tabu
enquanto me reprimem
meu orgasmo flui!

Raquel García.

segunda-feira, junho 2

Páginas passagens

Rodovia
Ferrovia
passo pelas vias
Sobre rodas
ou trilhos
São seis por dia
30 por semana
120 por mês
de conduções
que amontoam multidões
na espera da fila
do transporte público
imundo
que nos faz dormir com as baratas
acostumando-nos
às enguiçadas marchas
é o cotidiano
que me rouba horas
de um tempo
que não me pertence
nem controlo
dando presença
ao “natural” atraso
corredores,
buzinadas
e motores
nada acelera tudo se desespera
chacoalha feito montanha-russa
assim, fazendo do caos um retorno
da companhia por entre as páginas
que se multiplicam
além do número
das rodas,
trilhos
desenham um mundo
paralelo a esse
imagens e perspectivas surgem
acarretando no pensar
desconstrutivo
sob o olhar visto
da janela pra fora
intrigando as ideias
do meio que me expande


Raquel García.

As que não pariu

Feito choro antigo escorre em mim lágrimas em abundância ao encarar as histórias tão minhas em meio às relutâncias
Choro por minhas irmãs que são mulheres pretas de carapinha
Desagua as angústias de cada pílula engolida no dia seguinte muitas vezes não vivido por desfecho de um corredor frio e sangrento
Sigamos, irmãs! com nosso ori vivas pela força que nos impulsiona pra onde quisermos ir Raquel García.

segunda-feira, abril 28

Labi(o)riontos

Cheiro da pele
Convida
Eriça
Atiça


Aproxima
Natural
Tal química


Dança do pescoço
Que pra frente
Vai
Retrai
Saliva

Meu olhar
Debaixo pra cima
Te alucina

Contorce o corpo
Ímpeto
Inspira

Escracho
Oralizado
Eu lambuzo
Me esbaldo

Raquel García.

Intro

Sinto
Transmito
Respiro

Inisisto
Transpiro
Inspiro

Raquel García

Despertar

sonhos eróticos
mantém o fechar
dos olhos
eriçam meus mamilos
proporcionando o abrir
dos instintos
pra sentir
o que escorre de dentro
de mim
fico ardente,
sensível,
envolvente
por cada  perímetro dos poros
que exalam suor,
e aos poucos umedeço
minha calcinha,
assim, entorpeço
defloro,
faço manha
deixo o ambiente
perfumado à xana
rolo pelo edredom
contendo o meu som
retorço,
contorço
esboço
das partes minhas
que alucinam-se
em fantasias
ainda em horizontal
me imagino na frontal
e todo o fervor do pau
rebolo e debruço
não nego meus impulsos
explodo
(re)adormeço
na solidão aquecida


Raquel García

terça-feira, abril 8

Lixo social (ou espelho do ter)

cores alaranjadas
contrastam com o cinza
transitam dia a dia pelas calçadas
carregando pá e sacolas
passam por vielas,
escadas

por entre as vias 
são tão invisíveis
feito as pets 
arremessadas 
na rua ou na estrada

desde os paralelepídos 
às encostas
batucam, varrrem
pintam e recolhem

não são tão felizes
quanto a imagem do Sorriso
que globo se apropria no carnaval
e nos dias que correm
recolhem o mal-estar social

aquele acúmulo
do exacerbado consumo
carros, ônibus e pedestres
depositam seus dejetos
feito chuva torrencial

por toda parte
ainda há de se ouvir 
que aquilo é o que deve servir
esses homens e muitas mulheres

sob sol ou chuva
percorrem as falidas metrópoles
advindas de uma coroa velha
república antagônica

soterrados no próprio lixo
lixo urbano
das gentes, 
que somos nós
ditos cidadãos
urubus ambulantes

e quando garis cruzam os braços
isso é manifesto, revolta
sem necessidade de teoria
ou manual de rebeldia
é o povo!
a culpa não é deles
sobre os resíduos por aí
é simbólico
o cheiro do ralo

advindo do nosso próprio modelo
de sociedade
vagando em desconcerto
e descaso.

Raquel Garcia.

sábado, março 22

Contato

Conversa dos olhos
precipitam o encontrar dos lábios
que se estende pelos braços
ao se entrelaçar um no outro
desenhando o abraço
desperta afago,
acaricio, logo 
beijo!
recíproco ensejo
como se;
face a face
ouvíssemos a saudade
de nossos poros
que se falam
sem palavras da língua
mas deságuar de salíva
troca de sintonia
"amor por telepatia"
em tom de sinestesia.

Raquel García

sexta-feira, março 21

Ainda vejo sangue

Massacre de Shaperville
todo dia em outra forme se exprime

Tão cruel
que até hoje
vejo meus irmãos sendo réus

Muitas vezes não culpados
estigmatizados
são violentados,
transtornados,
arrastados

Lamento cada um
que para a mídia
são apenas números comuns

A ONU não alterou
o rumo da História
que no registro de datas
o dia ficou


O Apartheid de 60
que resultou-se em mortos
dizem que foram 69
hoje, a cada 10
nem sobram nove

Hoje tem cor azul
a lei do passe
marca do massacre

Minha cor feito noite
não se vê livre do açoite


Ainda caminhando
para as cicatrizes alterar

de cinquenta e quatro anos
somados aos trezentos...

e ainda vejo sangue

Seja na África do Sul
ou na América
norte,
latina, 
militarizada
continuará sendo

assassina.


Raquel García

quarta-feira, março 12

Preto

Preto é a cor
que demarca
meu sorriso claro,
meu cabelo encrespado

Pigmento da pele
é preto
reflete o brilho
concreto
A concha 
possui melanina
delineia a intimidade
frutífera da vida

Assim,
faço parte da terra
escura e preta
Resistindo diariamente
com meu tom expoente
raiz e ancestralidade
faz minha genética consciente

Preto é lindo!
Raquel García.